Projeto Balaio de Memórias busca valorizar histórias de vida dos idosos

Camila Leal

Dar voz a quem se sente marginalizado. Acolher quem tem dores na alma. Valorizar a história. Ressignificar a história. Ser protagonista. Quebrar padrões. Permitir sonhar. Tudo isso é o Balaio de Memórias. Desenvolvido pelo Crami – Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância, – o projeto teve início em 2016 com a proposta de acolher o idoso por meio do resgate de suas histórias da infância e adolescência. “Nosso intuito é usar o recurso do vídeo para incentivar que eles contem e resgatem suas memórias, valorizem o que foi vivido e aprendido. Com isso, também afirmamos a importância deles como atores da cultura oral na sociedade”, conta o educador social Alexandre Alves. Além disso, é uma forma de trabalhar com a imagem deles e estimular o autocuidado. Ele e a educadora Thaís Mello fizeram um documentário com três idosos: o Sr. Milton, 66 anos, a Dona Cleusa, 65 anos, e a Dona Teresinha, 66 anos. Este ano, o projeto continua com mais sete idosos.

Uma das boas surpresas do material audiovisual foi a possibilidade de retomar vínculos familiares, o que aconteceu com Dona Teresinha. “Ela nos contou que muitas pessoas a achavam bem parecida com a irmã, mas ela não concordava. Depois de assistir a si mesma, passou a ver a semelhança com a irmã e sentiu vontade de conversar novamente com a família”, lembra Alexandre. Após esforços da equipe do Crami, as duas restabeleceram o vínculo. “Quando mostramos o vídeo, Dona Teresinha verbalizou o quanto gostou de participar do projeto, de poder contar seus momentos felizes e difíceis e poder enxergar que o seu jeito de ser tem relação com suas experiências do passado”, comentam a psicóloga Bruna Demonico e a assistente social Sidneia Carreiro.

Dona Cleusa também gostou de participar do Balaio. “Pude recordar histórias que estavam esquecidas. Foi muito bom”, conta. No vídeo ela revela ter o sonho de ter uma casa “arrumadinha” e, coincidentemente, devido a alguns acontecimentos em sua vida, ela se mudou para Monte Mor numa casa do jeito que queria.

Um avanço na tomada de consciência sobre o que se deseja como vida para si mesmo também foi um dos efeitos do Balaio de Memórias. Sr. Milton, que perdeu a visão, pôde se expressar, lembrar-se da pessoa que era antes da deficiência, reconhecer suas limitações e perceber que seu modo de vida depende de suas escolhas.  E embora seu sonho seja enxergar novamente, com o Balaio ele pode “enxergar” outras questões de sua vida.

A principal contribuição para esses idosos, segundo o educador, foi o sentimento de se sentir ouvido, querido. “Quando mostramos o documentário para esses idosos, todos eles falaram o quanto é bom ter alguém que os escute”, afirma Alexandre. O Balaio de Memórias é muito mais que simplesmente ouvir as histórias, é escutar com acolhimento.

Sempre fui chamada de menininha. Quando me casei, meu marido me deu nome, sobrenome e idade.
Contar minhas histórias me tiram da solidão.

Dona Arlete
Dona Arlete

Meu pai conheceu Lampião. Ele até ajudou com um saco de moedas.

Antônio
Antônio

Eu só queria que meus filhos me visitassem mais.

Dona Alvina
Dona Alvina

Eu mais o meu véio não parava um minuto, era um forró arretado.

Dona Joana
Dona Joana

Sempre sonhei em ter as minhas histórias gravadas… Espero que elas sirvam de incentivo para outras pessoas.

Dona Marina
Dona Marina

Uma pitada do Balaio 2: Dona Arlete

As gravações para a segunda edição do Balaio de Memórias começaram no início deste ano. Sete idosos estão sendo entrevistados. A equipe sempre faz um acolhimento antes de iniciar a conversa. Depois, liga a câmera, e as histórias, lembranças, em sua maioria sofridas, começam a se desenrolar. Uma das personagens dessa segunda edição é Dona Arlete Belmiro. As entrevistas com ela ainda não foram finalizadas, mas já podemos traçar um perfil dela. Confira.

Arlete Belmiro não sabe bem onde nasceu e quando. Foi criada em Mossoró por Rosa, senhora que a adotou com 6 anos “pra judiar”, nas suas palavras. Ela não tinha nome, Rosa a chamava de “menininha” e a obrigava a trabalhar na roça. A senhora também batia nela quando fazia xixi na cama. “Me criei muito sofrida. Ela (Rosa) dava dois pedacinhos de “polenta” e água de vinagre”, conta. “Só quando a gente estava na roça e colhiam melancia a gente enchia a barriga”.

“Nunca tive uma boneca, um brinquedo”, revela. Quando tinha 14 anos, Rosa faleceu, mas para não deixar Arlete sozinha arranjou um marido pra ela. “No começo ele era muito bom pra mim, mas depois começou a beber e batia em mim”.

Arlete conta que foi o marido que deu nome e sobrenome para ela. “Nunca estudei. Comecei a estudar quando nos mudamos para (o estado) São Paulo.” Eles se mudaram para Jacareí e decidiram adotar Patrícia, filha de um casal de adolescentes que não quis criar a menina. A vida toda ela trabalhou para sustentar a filha. Quando Patrícia tinha 3 anos, Arlete decidiu se separar do marido. Ela veio para Campinas e aqui Padre Chiquinho ofereceu emprego e casa para morar. Com o dinheiro que ganhava, foi juntando e conseguiu comprar um terreno na Vila Lafayette Álvaro. Construiu uma casa e alugou para um casal. Porém, quando decidiu realmente se divorciar do marido, teve que vender a casa, para dar metade do dinheiro ao marido. Ela nunca morou na casa.

Em 2009, a filha faleceu de Leucemia. “Eu vivia feliz quando ela era viva”. Patrícia teve três filhos e Arlete ficou por um tempo com a guarda deles. Ela mora numa pensão, próximo da rodoviária. Sua renda vem de um benefício do governo e da venda de cigarros.